Terrorismo no Brasil: o descaso pode custar caro

Leonardo Pujol e Robson Pandolfi, PARA A REVISTA VOTO
Rio de Janeiro, em 2014: simulação, no Rio de Janeiro, de acidente radiológico no metrô causado por atentado terrorista. FOTO: Tânia Rêgo/ABr

Rio de Janeiro, em 2014: simulação, no Rio de Janeiro, de acidente radiológico no metrô causado por atentado terrorista. FOTO: Tânia Rêgo/ABr

 

NA MADRUGADA do dia 5 de setembro de 1972, oito jovens pularam uma cerca para entrar na Vila Olímpica de Munique. Não despertaram nenhuma suspeita dos vigilantes, que acreditaram tratar-se de atletas voltando de uma noitada. Naquele ano, a Alemanha tentava retratar a imagem ruim deixada por Berlim em 1936, quando Hitler usou o esporte para promover o nazismo. Tudo vinha bem, até que a atmosfera amistosa deu lugar ao pânico. Os oito jovens não eram atletas, mas palestinos integrantes do “Setembro Negro” — uma das facções mais extremistas do Al-Fatah, grupo ligado à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Com fuzis AK-47, pistolas e granadas, os terroristas invadiram os alojamentos e fizeram reféns membros da delegação israelense. Queriam a libertação de 234 prisioneiros palestinos em Israel. No corre-corre, dois atletas foram assassinados. Outros nove morreram na desastrosa tentativa de resgate por parte da polícia alemã, já no aeroporto de Fürstenfeldbruck. No total, cinco terroristas e um policial também morreram.

Olimpíadas de Munique, em 1972: iniciava o terrorismo em grandes eventos. FOTO: Reprodução

Olimpíadas de Munique, em 1972: iniciava o terrorismo em grandes eventos. (FOTO: Reprodução)

O “Massacre de Munique” inaugurou a era do terrorismo em grandes eventos, trazendo preocupação a cerimônias que reúnem líderes ou multidões. Por isso, é de se deduzir que o Brasil — que recém sediou uma Copa do Mundo e que no próximo ano abrigará as Olimpíadas — está muito bem preparado para lidar com eventuais ataques, certo? Não necessariamente.

A queda das Torres Gêmeas, em 2001, potencializou o medo e espalhou os tentáculos do terrorismo mundo afora. Ainda assim, há quem pense que o Brasil está livre dessa sombra. Mas não está. Tanto é que na Rio+20, realizada em 2012, 20 mil homens foram escalados para garantir a segurança de quem circulava pelo Rio de Janeiro. No Mundial, o número foi nove vezes superior: 180 mil, entre membros das Forças Armadas, policiais e agentes. Foi o maior esquema de segurança já montado em solo nacional.

Ainda que até hoje o Brasil tenha passado incólume a ações terroristas, a visibilidade internacional de eventos como as Olimpíadas tornam o País, cada vez mais, um alvo em potencial. Daí a preocupação de muitos especialistas, que defendem uma política de prevenção que vá além de medidas pontuais.

 

COM EXCEÇÃO DE CHILE E EQUADOR, todos os outros 11 países da América do Sul fazem fronteira com o Brasil. São mais de 15 mil quilômetros de fronteira terrestre. Controlar de maneira eficiente toda essa área é uma missão complicada. Além disso, exceto em regiões de fronteira, a maioria as vistorias feitas em aeroportos não é realizada pela Polícia Federal. A responsabilidade cabe a funcionários terceirizados — muitos dos quais sem a preparação adequada para a função. Insira nesta conta a inexistência de uma legislação com punições específicas para o terrorismo. Pronto: chega-se facilmente às condições ideais para um ataque.

Apesar de o Congresso discutir há quase dois anos um projeto que tipifique o crime, até agora não houve acordo entre deputados e senadores para a aprovação de uma lei exclusiva. “O pior erro que qualquer governo pode cometer é negligenciar o grau de ameaça representado pelo fenômeno terrorista, por menor que seja”, observa Marcos Degaut, ex-oficial da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

“O fato de não se ter sido registrado nenhum ataque terrorista na história recente do Brasil não significa que nunca irá ocorrer”, acrescenta ele, que atualmente é pesquisador em Estudos de Segurança na Universidade Central da Flórida, nos Estados Unidos. Conforme o Departamento de Estado Norte-Americano, aconteceram no mundo 9.907 ataques terroristas em 2013 — um aumento de impressionantes 43% em relação ao ano anterior.

Os atentados causaram quase 18 mil mortes e deixaram mais de 32 mil feridos. Nenhum deles em território brasileiro. Ainda assim, o País já levou até mesmo um puxão de orelhas por não se empenhar no combate ao financiamento de organizações terroristas.

O autor da advertência foi o Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GAFI/FATF), organização intergovernamental que atua no desenvolvimento de políticas de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terror.

A carta de advertência foi entregue no final do ano passado ao então ministro da Fazenda, Guido Mantega. Em última instância, se os problemas apontados não forem sanados, o País poderá entrar para uma “lista negra” do GAFI. Isto é: ser removido do grupo e, inclusive, sofrer sanções comerciais.

Procurado pela Revista VOTO, Antônio Gustavo Rodrigues, presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão do Ministério da Fazenda responsável pela fiscalização, limitou-se a dizer que o combate ao terrorismo pelas autoridades brasileiras “é eficaz e respeitado internacionalmente”. Ele afirmou ainda que, no momento, não há qualquer ameaça de sanção.

Treinamento da Marinha para a Copa do Mundo, em 2014. FOTO: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Treinamento da Marinha para a Copa do Mundo, em 2014. (FOTO: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr)

UMA DAS ÁREAS mais vulneráveis do País fica no Paraná, na Tríplice Fronteira formada por Brasil, Argentina e Paraguai. Relatórios norte-americanos há anos alertam para o perigo da região, que concentra alto índice de tráfico de armas e pessoas, narcotráfico, contrabando, falsificação e lavagem de dinheiro. Atividades assim são um prato cheio para servir a células ou indivíduos ligados a organizações terroristas.

Em novembro passado, a Polícia Federal confirmou haver encontrado evidências dessa ameaça, com indícios de que traficantes libaneses ligados ao Hezbollah se aventuraram numa associação com criminosos brasileiros. A relação dos traficantes libaneses teria aberto canais para o contrabando de armas destinadas ao PCC, organização que atua em presídios. Em troca, os presos brasileiros prometiam dar proteção aos integrantes da quadrilha libanesa já detidos.

Ponte da Amizade, entre o Brasil e o Paraguai, é região de alto risco, segundo a Polícia Federal

Ponte da Amizade, entre o Brasil e o Paraguai, é região de alto risco, segundo a Polícia Federal (FOTO:Reprodução)

EM 2016, o Rio de Janeiro será palco do maior evento esportivo do planeta, as Olimpíadas. E, naturalmente, o alerta de segurança já é máximo. Não só por ser um evento grandioso, mas também porque o mundo ainda estará lembrando as marcas deixadas pelos extremistas — respaldados pela Al Qaeda do Iêmen — que assassinaram a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris.
A própria Abin admite a ameaça, especialmente de “lobos solitários”, como são chamados os indivíduos ou grupos restritos que se encantam por uma ideologia através da internet — e podem promover ataques mesmo sem participar formalmente de um grupo terrorista.

Uma tragédia ocorrida em abril de 2011 no Rio de Janeiro ilustra um exemplo de perfil procurado por terroristas. Sem amigos e sofrendo de diversos distúrbios, o jovem Wellington Menezes de Oliveira invadiu uma escola municipal matando 12 crianças e ferindo outras 12. Em seguida, se suicidou.
Em manifestações recentes à imprensa, Luiz Alberto Sallaberry, diretor de Contraterrorismo da Abin, assegura não existir célula terrorista no País, mas admite que existem pessoas que podem facilitar o trabalho dos terroristas. Atenta a esses casos, a Abin já chegou a identificar ameaças e impedir a ocorrência de ataques durante a Copa do Mundo, em 2014.

No livro A assustadora história do terrorismo (Ediouro, 2002), Caleb Carr explica que terroristas contemporâneos já deixaram para trás a praxe de apontar armas e fazer exigências – como foi o caso de Munique: “Estão puxando o gatilho sem discussão ou aviso”. O autor ainda defende que uma ação militar constante será o único remédio para o problema.

Na visão de especialistas, tanto a PF quanto a própria Abin possuem excelentes profissionais em seus quadros. Mas isso, por si só, não é suficiente para conter a fúria dos extremistas. A prevenção e o combate ainda precisam ser absorvidos pela cultura política, policial e de inteligência brasileira.

“O governo age como se tivesse certeza de que nunca acontecerá um ato terrorista”, critica Marcus Reis, consultor de segurança especialista em terrorismo. “Além disso”, ressalta, “é necessário pensar no depois: psicólogos, engenheiros de reconstrução, especialistas que deem resiliência ao Brasil [caso um ataque aconteça]. A prevenção é sempre mais barata.”

| Publicado originalmente na Revista Voto — Edição 119.