Em busca de sentido

Robson Pandolfi, de Paris
République (3)

Desde o ataque contra o Charlie Hebdo, a Place de la République virou um espaço de homenagem às vítimas

A região do 11° arrondissement de Paris se transformou em um templo de peregrinação mórbida em 2015. Antes mesmo do massacre que deu cabo à vida de 130 pessoas, a Place de la République, um dos mais emblemáticos espaços da cidade, já era adornada com flores, velas e mensagens de homenagem ao jornal satírico Charlie Hebdo, alvo dos atentados de 7 de janeiro do ano passado. Depois dos ataques de 13 de novembro, no entanto, os tributos às vítimas do terrorismo se multiplicaram — e colocaram os locais no mapa turístico de Paris.

Da République, é possível acessar algumas das principais vias da cidade. Em menos de dez minutos de caminhada pelo movimentado Boulevard Voltaire, chega-se a outra praça, menor e mais discreta do que sua prima ilustre — exceto pelos quase 100 metros de arranjos de flores, velas, cartazes, fotos, mantas de clubes de futebol, bandeiras, velas e até um arranjo enviado pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Há, ainda, cartazes em várias línguas com mensagens de apoio e protesto — “stop de war”, “pray for Paris”, “marche pour la liberté, l’égalité et la fraternité”.

Orgulhosos, pais tiram fotos dos filhos sorridentes, como se estivessem em frente a algum dos famosos pontos turísticos da capital francesa. Entretanto, do outro lado da rua, na esquina da passage Saint-Pierre-Amelot com o Boulevard Voltaire, o que se vê é a casa de shows que, em 13 de novembro — por uma sinistra casualidade, uma sexta-feira 13 –, recebia uma multidão para um concerto da banda californiana de rock Eagles of Death Metal. A fachada do Bataclan ainda estampa as marcas dos ataques que mataram 90 pessoas. Muitos dos sobreviventes correram para a estreita Saint-Pierre-Amelot, de onde um jornalista do Le Monde filmou as cenas de terror. No vídeo, ainda é possível ouvir tiros sendo disparados dentro da boate — e observar o desespero de quem tenta escapar do local.

Pessoas de diferentes países prestaram homenagens às vítimas na praça em frente ao Bataclan

Pessoas de diferentes países prestaram homenagens às vítimas na praça em frente ao Bataclan

No jardim May-Picqueray, a praça em frente ao Bataclan, um senhor se aproxima ao me ver tomando notas. Ele mostra fotos que tirou em frente ao Charlie Hebdo — se pronuncia “ebdu”, com ênfase na última sílaba — e comenta: “Essas flores foram enviadas pelo presidente François Hollande”, apontando para um sofisticado arranjo exposto defronte ao edifício. Ele foi colocado na manhã de 4 de janeiro, quando começaram as homenagens pelo aniversário dos ataques.

Na discreta fachada branca do prédio, nenhum elemento identifica o jornal — com exceção de uma placa dourada instalada também no dia 4. Nela, há a inscrição “A la memóire des victimes de lattentat terroriste contre la liberté d’expression perpetré dans les loucaux de Charlie Hebdo le 7 janvier 2015” (“Em memória das vítimas do ataque terrorista contra a liberdade de expressão”), além dos nomes dos 11 mortos na invasão dos irmãos jihadistas Said e Sherif Kouachi ao jornal: Frédéric Boisseau, Franck Brinsolaro, Cabu, Elsa Cayat, Charb, Honoré, Bernard Maris, Mustapha Ourrad, Michel Renaud, Tignous e Georges Wolinski.

A inauguração da placa foi marcada com uma gafe, que repercutiu durante o dia todo na TV francesa: o nome do cartunista Wolinski foi escrito de maneira errada, com Y. No mesmo dia, a placa foi substituída. Hollande ainda inaugurou outras duas condecorações: uma perto do supermercado kosher atacado em 9 de janeiro pelo jihadista Amédy Coulibaly, que matou três clientes e um funcionário, todos judeus. A outra foi colocada em Montrouge, onde uma policial foi assassinada no dia 8.

Bataclan

A casa de show Bataclan registrou o maior número de vítimas nos ataques de 13 de novembro: foram 90 mortos

Passava das 21h40 (horário de Paris) quando um dos três terroristas que invadiram o Bataclan enviou uma mensagem de texto para um celular na Bélgica: “Nós começamos”. A informação foi revelada pelo procurador de Paris, François Molins. O telefone utilizado para o envio, que continha plantas do edifício, foi encontrado em uma lata de lixo nas proximidades. Quase ao mesmo tempo, a menos de 1 quilômetro dali, outro grupo abria fogo contra clientes de bares e restaurantes da região.

Na rua Faubourg-du-Temple, cinco clientes que estavam no bar La Bonne Bière foram mortos. Primeiro dos seis estabelecimentos atacados a reabrir as portas, o La Bonne Bière agora estampa em sua fachada um cartaz com a mensagem “Je suis en terrasse” (“Eu estou na calçada”, em tradução literal). Para compreender o anúncio, é preciso entender a relação dos parisienses com esse espaço.

Terrasse é como os franceses chamam a área externa de seus cafés, bares e restaurantes. Definitivamente uma das marcas do estilo de vida parisiense, era nesses locais que estava a maioria das vítimas dos ataques aos cafés.

Logo, o emblema pode ser entendido como uma forma de resistência. “O terrasse revela muito sobre a essência do parisiense, e um ataque a esse espaço tem um significado muito profundo para os franceses”, comenta o estudante paranaense Danilo Hundzinski Damasio. “Essa é uma forma de dizer: ‘Nós não estamos com medo. Nós ficaremos aqui. Vocês não vão conseguir nos intimidar’. É uma mensagem muito forte”, diz ele, que vive há 14 anos em Paris.

“Queremos ensiná-los que somos mais fortes que eles”, afirmou a encarregada do La Bonne Bière, Audrey Bily, em uma coletiva de imprensa no dia da reabertura do bar, três semanas após o massacre. A duas quadras dali, outras 15 pessoas foram mortas no hotel Le Carillon e no restaurante Le Petit Cambodge. Um pouco mais ao leste, próximo do célebre cemitério Père-Lachaise, fica o La Belle Équipe, onde os disparos mataram 19 pessoas.

Esquina do hotel Le Carillon e restaurante Le Petit Cambodge, alvos dos ataques do dia 13 de novembro

Esquina do hotel Le Carillon e restaurante Le Petit Cambodge, alvos dos ataques do dia 13 de novembro

Compreensivelmente, os ataques terroristas de 13 de novembro intensificaram as discussões sobre a conturbada crise migratória europeia. Com uma plataforma nacionalista e anti-imigração, as propostas do partido de extrema-direita Frente Nacional (FN) parecem ter seduzido uma parcela significativa dos franceses.

Logo após a polícia ter anunciado que um dos terroristas suicidas envolvidos nos atentados tinha passaporte sírio e havia entrado na Europa por meio da Grécia, em outubro do ano passado, a líder do partido, Marine Le Pen, pediu em comunicado o “fim imediato de qualquer acolhimento de imigrantes em França”.

Le Pen é uma figura polêmica, com um histórico familiar intimamente ligado à extrema-direita. Seu pai, Jean-Marie Le Pen, cofundador e presidente de honra da FN, chegou a defender que as câmaras de gás foram um “detalhe” da Segunda Guerra Mundial — um comentário que lhe rendeu condenações judiciais.

Escolhida sucessora do pai na Presidência do partido, em 2011, Marine Le Pen vem se esforçando para limpar a imagem da Frente Nacional. Pelo que dizem os números, vem dando certo.

No primeiro turno das eleições regionais da França, a Frente Nacional (FN) conquistou a maioria dos votos e liderou em seis das 13 regiões francesas (equivalentes aos estados no Brasil). Embora, no segundo turno, o partido não tenha conquistado nenhuma das regiões, o resultado — um recorde para a sigla — demonstra um crescimento significativo: foram 30% dos votos do País, ou quase 7 milhões de eleitores. Em 2012, haviam sido 18%.

Homenagens às vítimas dos ataques tomam conta da Place de la République

Homenagens às vítimas dos ataques tomam conta da Place de la République

A Place de la République apresenta em seu centro uma imponente escultura. Inaugurada em 1880, o Monumento à República é composto por uma estátua principal de 9,5 metros de altura, que repousa triunfante sobre uma coluna de pedra que lhe confere mais 15 metros. Um pedestal abaixo da coluna traz grafadas 12 datas que marcam eventos significativos na história da República francesa. Uma delas é o 20 de junho de 1789, uma referência ao chamado serment du jeu de paume, congresso que foi o marco inicial da Revolução Francesa. Outra é o 14 de julho de 1789, data que marca a queda da Bastilha — celebrada todos os anos como o principal feriado da França. Ao redor do monumento, outras três estátuas menores representam o lema da Revolução Francesa e o símbolo de sua democracia: liberté, égalité, fraternité.

A menos de 50 metros do monumento, no entanto, há um grupo para o qual os ideais iluministas parecem fazer pouco sentido. “Solidariedade para com os refugiados”, diz um cartaz escrito à mão, colocado em frente às cerca de 40 barracas erguidas no centro da praça. Acampados há três meses, imigrantes de diferentes nacionalidades — sírios, libaneses, afegãos, sudaneses — penam para encontrar a igualdade de oportunidades tão defendida ao longo da história da República francesa. Ali, dormem em condições precárias mais de 100 refugiados que não conseguiram abrigo nem trabalho ao chegar na França — além do terrorismo, o País luta contra um desemprego recorde. E ambos os problemas podem estar intimamente ligados.

Ao longo de dez anos, o sociólogo franco-iraniano Farhad Khosrokhavar entrevistou prisioneiros muçulmanos na França e na Grã-Bretanha — alguns deles acusados de terrorismo. A ideia era entender a interpretação que eles tinham do Islã e a visão sobre o Ocidente. Professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), prestigiada instituição conhecida pelos franceses apenas como École, Khosrokhavar publicou os resultados de seu estudo em seu mais recente livro, Quand Al-Qaida Parle: Témoignages Derrière les Barreaux (Quando a Al-Qaeda Fala: Histórias Atrás das Grades, inédito no Brasil).

Para o pesquisador, o contato com a sociedade ocidental e o permanente sentimento de humilhação despertaram nesses imigrantes a rejeição aos valores ocidentais e os levaram a uma interpretação rigorosa do Islã — o que não significa, necessariamente, o envolvimento em algum ato terrorista concreto. “O racismo e a mistura de exclusão econômica e humilhação continuam a fornecer um número significativo de recrutas”, analisa o pesquisador. “Na guerra contra o terrorismo islâmico, a igualdade de oportunidades é uma arma que não deve ser esquecida.”

Os dois meses em Paris ainda não permitiram que o afegão Abdeulwahid Safi encontrasse as oportunidades mencionadas por Khosrokhavar. Natural de Laghman, uma província rebelde na parte oriental do Afeganistão, onde grupos militantes armados operam ativamente nas remotas paisagens montanhosas, Safi conta que deixou sua terra natal para fugir dos fundamentalistas do Talibã.

Enquanto conversamos, logo uma dúzia de olhares curiosos formam um círculo em nosso torno — ainda que estejam acampados em uma região movimentada de Paris, a presença de jornalistas ali é bastante rara. “Esse não é propriamente um assunto de interesse da mídia francesa”, revela o jornalista Mortaza Behboudi. Natural de Wardak, no Afeganistão, Behdoudi se mudou para o Irã com dois anos, como refugiado. Hoje, colabora com a ONG Together with Refugees, que tem a missão — nada simples — de reconstruir as vidas das famílias de refugiados. “Não temos voz, não temos comidas, não temos casa. Não temos sequer acesso a hospitais”, comenta.

Safi ouve a conversa atentamente. Tenta, em vão, entender minhas anotações, enquanto explica, de um jeito tímido e retraído, os motivos que o levaram a escolher Paris. Mesmo vivendo em condições precárias, ele demonstra uma despreocupação de quem aprendeu desde cedo a lidar com a incerteza. “Ainda não tenho planos, não sei o que me espera”, diz. “Não sei nada sobre meu futuro.”

| Publicado originalmente na Revista Voto  —  Edição125.